Cultura

"Detesto Duna com uma intensidade considerável": Tolkien não se importava que fosse uma das melhores histórias de ficção científica — ele odiava a saga de Frank Herbert por um bom motivo

A Terra-média celebra a bondade e a providência, enquanto Arrakis alerta sobre a manipulação do poder e os perigos de seguir líderes carismáticos

Ao discutir os pilares da literatura fantástica e de ficção científica do século XX, dois nomes quase inevitavelmente surgem em qualquer lista mental: J.R.R. Tolkien e Frank Herbert. O Senhor dos Anéis e Duna não apenas marcaram um ponto de virada em seus respectivos gêneros, como também se tornaram peças fundamentais da cultura pop ocidental. No entanto, a relação de Tolkien com a obra de Herbert foi, no mínimo, controversa. Em suas próprias palavras, o criador da Terra-média chegou a dizer: “Detesto Duna com uma intensidade considerável”, deixando claro que, embora reconhecesse o mérito literário da obra, não compartilhava da admiração geral que ela recebia da crítica e dos leitores pelas aventuras proféticas de Paul Areides. Mas por que Tolkien detestava Duna?

Não existem registros diretos do que Frank Herbert pensava sobre Tolkien, mas as opiniões de Tolkien sobre a ficção científica de sua época são bem conhecidas. O professor de Oxford, mais inclinado à literatura fantástica tradicional, frequentemente criticava a construção de mundos excessivamente tecnológica ou política, especialmente aquela que colocava a ação humana nas mãos de sistemas de poder impessoais ou messias carismáticos.

Em cartas particulares, Tolkien expressou seu desprezo pela especulação política e científica excessiva que caracterizava algumas obras de ficção científica moderna, e Duna parecia personificar o que ele considerava problemático: um mundo dominado por profecias, messias e poder concentrado em poucas mãos, onde a humanidade está constantemente à beira do desastre devido a decisões individuais ou coletivas — não que todo o destino da Terra-média dependa de alguém jogar ou não um anel em um vulcão, vale ressaltar…

Embora Tolkien admitisse que Duna era “uma das melhores histórias de ficção científica”, como apontou Arthur C. Clarke (autor de 2001: Uma Odisseia no Espaço), seu gosto pessoal não coincidia com o fascínio generalizado. Para Tolkien, a epopeia de Duna carecia do equilíbrio moral e espiritual que ele buscava em suas próprias narrativas: “…o trabalho mais indigno de qualquer homem, mesmo de santos, é comandar outros homens”, escreveu ele ao seu filho Christopher. Essa afirmação reflete sua visão de que a autoridade concentrada inevitavelmente corrompe, um tema central explorado por Herbert em Duna. Aliás, não sei se você percebeu, mas no final de Duna, Paul Atreides é o vilão da história.

O peso dos heróis: análogo e divergente

Apesar da rejeição pessoal de Tolkien à ideia, estudos como os de N. Trevor Brierly apontam que Duna e O Senhor dos Anéis compartilham inúmeras semelhanças que enriquecem nossa compreensão dos dois universos. As narrativas giram em torno da luta entre o bem e o mal, apresentando jovens heróis que precisam deixar um lar idílico para enfrentar ambientes hostis. Frodo deixa o pacífico Condado para viajar por desertos, montanhas e pântanos até chegar a Mordor, enquanto Paul Atreides deixa a fértil Caladan para sobreviver na árido Arrakis, quase destruída por seus inimigos e traído por um Imperador temeroso de seu potencial. Como Brierly observa, “as regiões selvagens acabam sendo ótimos lugares para se esconder”, uma ideia que reflete como ambientes extremos transformam e fortalecem os protagonistas.

Nos dois casos, a jornada por territórios hostis é simbólica: a viagem pela Terra-média e a coexistência com os Fremen em Arrakis representam não apenas a perda da inocência, mas também um espaço onde os personagens desenvolvem habilidades e valores essenciais. Frodo e Sam ganham autoconfiança e uma compreensão do valor da misericórdia, enquanto Paul e Lady Jessica aprimoram suas habilidades e liderança, confrontando o peso da profecia e o futuro do universo. Tanto Frodo quanto Paul carregam responsabilidades que moldam suas existências. Frodo carrega o Anel, que não apenas o sobrecarrega fisicamente, mas também exerce uma pressão espiritual constante: “Não! Com esse poder eu também teria um poder grande demais e terrível. E sobre mim o Anel ganharia um poder ainda maior e mais mortal… Não me tentes!”, diz Gandalf em A Sociedade do Anel. Paul, por sua vez, suporta o “propósito terrível” de seu messianismo e o futuro sangrento da Jihad que os Fremen desencadearão, um conflito que, mesmo com sua presciência, ele não pode controlar completamente: Paul teme tomar o poder porque sabe que o deseja ardentemente e que o usará para justificar sua vingança pessoal como uma sangrenta mudança de regime que o transformará em um imperador cruel.

A principal diferença reside no tipo de fracasso que enfrentam: Frodo fracassa em sua jornada, e a destruição do Anel depende do acaso e das ações de outros; Paul, por outro lado, triunfa militarmente e restaura os Atreides, mas sua vitória tem consequências catastróficas, tornando-o indiretamente responsável pela morte de bilhões. Esse contraste reflete a filosofia subjacente de cada autor: Tolkien enfatiza a providência e a bondade que se manifesta até mesmo em pequenas ações humanas, enquanto Herbert alerta para os perigos do poder e dos líderes carismáticos, mostrando que até mesmo o herói pode ser enredado em um sistema corrupto e destrutivo.

Outro elemento comum é o conceito de vício e poder. Em Duna, a especiaria, ou melange, é vital, desejada por todos e altamente viciante: prolonga a vida, aprimora habilidades e concede influência política. Em O Senhor dos Anéis, o Anel tem um efeito semelhante: concede poder e longevidade, mas corrompe e subjuga a vontade de quem o usa. Gandalf descreve Gollum como “preso pelo desejo por ele”, enquanto Frodo experimenta um desejo crescente de mantê-lo à medida que viaja em direção a Mordor. Tanto o Anel quanto a especiaria funcionam como motores da ação narrativa, impulsionando personagens e tramas em direção a conflitos inevitáveis ​​para aqueles que os empunham.

Tolkien e Herbert refletem uma clara ética ambiental em seus mundos

Os domínios dos vilões, como Mordor ou Giedi Prime, são inóspitos, explorados e visualmente repulsivos, enquanto os territórios dos heróis, como o Condado, Lothlórien ou Caladan, são férteis, belos e sustentáveis. Gandalf observa a devastação em Isengard com horror: “Onde antes era verde e bela, agora estava repleta de fossos e forjas”. Da mesma forma, Herbert descreve Giedi Prime como um mundo industrializado e exaurido, refletindo como os valores morais também se manifestam na relação com o meio ambiente e a ecologia, na superexploração de recursos e na conservação ambiental.

Messianismo, fatalismo e moralidade

A principal diferença entre Tolkien e Herbert reside na concepção de heroísmo e história. Tolkien confia na providência e na integridade moral: mesmo pequenos atos, misericórdia e perseverança podem mudar o curso dos acontecimentos. O Um Anel, embora poderoso, não pode ser destruído apenas pela força humana; requer a ação coordenada do acaso e da ética dos personagens. Em contraste, Herbert propõe um mundo onde as estruturas de poder e o conhecimento prévio limitam a liberdade. Paul, embora valente, não consegue escapar da violência e da corrupção inerentes à estrutura política e religiosa que o cerca.

Essa diferença explica em grande parte a animosidade de Tolkien em relação a Duna: enquanto ele valorizava narrativas que enfatizavam a virtude, o sacrifício e a misericórdia, Herbert explorava os perigos do poder absoluto e a ambiguidade moral dos sistemas humanos. Para Tolkien, um mundo centrado na política e no messianismo, por mais brilhante que fosse, carecia da mensagem moral e espiritual que ele buscava na literatura fantástica. Ambas têm uma clara tendência moralizante, mas uma é muito mais cínica do que a outra.

Apesar de suas diferenças e dos julgamentos pessoais de Tolkien, fortemente influenciados por suas crenças religiosas, tanto O Senhor dos Anéis quanto Duna são leituras essenciais para qualquer fã de literatura de gênero. A riqueza de seus universos, a complexidade de seus personagens e a profundidade de seus temas os tornam textos que transcendem seu tempo. Ambas nos mostram que histórias de fantasia e ficção científica não são apenas escapismo desmedido, mas ferramentas para explorar dilemas éticos, sociais e políticos. Como Brierly destaca, “os dois romances tratam da transformação e do despertar da autoconsciência, do domínio da mudança inevitável e do confronto com o poder corruptor”. Eles são, em essência, duas versões da famosa Jornada do Herói de Joseph Campbell, um conceito também encontrado em obras como Star Wars e Harry Potter.

Num momento histórico marcado pela polarização, crise ambiental e tensões políticas, estas histórias oferecem reflexões necessárias sobre resiliência, responsabilidade pessoal e interação com o meio ambiente, seja ele físico ou ideológico. Tanto Frodo quanto Paul nos lembram que liderança e coragem não são absolutas; elas são sempre condicionadas pelas circunstâncias, pelas limitações humanas e pela moralidade.

Ler Tolkien e Herbert é mergulhar em universos que, embora distintos em tom e foco, compartilham a capacidade de nos ensinar sobre a condição humana, a resiliência e a necessidade de agir eticamente mesmo em contextos adversos. São, sem dúvida, peças essenciais de nossa cultura, universos que permitem aos leitores de todas as idades explorar, refletir e aprender.


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